
Papel de Felipe Simas em Lá na Minha Terra foge do estereótipo ao transformar a convivência religiosa em instrumento de aproximação comunitária.
A representação de lideranças evangélicas na teledramaturgia brasileira frequentemente oscilou entre a caricatura humorística e o antagonismo moralista. Em *Lá na Minha Terra*, a construção do Pastor Geison, interpretado por Felipe Simas, aponta para uma direção diferente ao colocar a tolerância e a escuta mútua no centro de sua trajetória na fictícia Lavra Seca.
O personagem assume a liderança espiritual protestante da cidade e se recusa a transformar a fé em barreira. Com a morte do antigo sacerdote local, Padre Honório, quem chega para assumir a paróquia é o Padre Otávio Alacocque, vivido por Luis Miranda. Em vez da rivalidade previsível entre púlpitos, Geison acolhe o recém-chegado e desenvolve com ele uma relação de amizade e cooperação direta.
A abordagem ganha peso pelas declarações do próprio ator. Convidado pelo diretor Allan Fiterman, Simas aceitou o projeto guiado pela vontade de aproximar sua própria vivência espiritual do ofício cênico, sem cair na armadilha do discurso fácil ou da pregação vazia em cena.
Cooperação em um cenário de atritos
A aliança ecumênica entre o pastor e o vigário ganha ainda mais relevância quando observada contra o restante de Lavra Seca. O município fictício é marcado por disputas territoriais, interesses velados e uma vigilância comunitária quase sufocante.
Enquanto figuras como Cosminha e Saviana utilizam a moralidade como instrumento para controlar a vida alheia, alimentadas pelos bastidores da delegacia através da escrivã Otacília, Geison atua em sentido inverso. A presença de um líder evangélico que busca pontos de contato com o catolicismo equilibra a balança de uma comunidade tensionada por vaidades, como as do delegado Gofredo Gondim, e por conflitos agrários que dividem os trabalhadores da região.
Ao apostar em um pastor conciliador, a narrativa não apenas humaniza o segmento religioso na faixa das seis, mas estabelece o diálogo como motor dramático em uma cidade acostumada a julgar antes de acolher.