Pesquisadores conseguiram modificar geneticamente alfaces para produzir proteínas suínas, abrindo caminho para uma nova forma de produção de alimentos.

Imagine um futuro em que, para obter os componentes de uma carne de porco, não seja necessário criar animais, mas sim cultivar alfaces. Parece um roteiro de ficção científica, mas pesquisadores do Imperial College London deram um passo concreto nessa direção ao transformar a planta comum em uma verdadeira biofábrica molecular.
O estudo, divulgado recentemente, detalha como a equipe conseguiu inserir proteínas de mioglobina suína dentro do cloroplasto das folhas de alface. A mioglobina é a proteína responsável pela coloração avermelhada e por grande parte do sabor característico da carne de porco. Para realizar a proeza, os cientistas utilizaram um sistema conhecido como 'pistola de genes', que dispara micropartículas carregadas de DNA diretamente nas células vegetais.
O funcionamento da biofábrica
A escolha do cloroplasto como alvo não foi por acaso. Ao modificar o genoma dessa organela, a planta consegue produzir quantidades significativamente maiores da proteína desejada em comparação com outros métodos de engenharia genética. Além disso, a alteração torna-se estável, permitindo que a característica seja transmitida naturalmente para as futuras gerações da planta.
Essa não é a primeira vez que cientistas brincam de 'fábrica molecular' com hortaliças. Há cerca de quinze anos, um laboratório na Flórida já havia demonstrado a capacidade de uma alface produzir pró-insulina humana, chegando a compor mais de 50% de sua proteína solúvel total.
O gosto da inovação
A grande questão que paira sobre a descoberta é: a alface modificada tem gosto de carne de porco? Por enquanto, a resposta permanece um mistério. Ninguém provou o vegetal experimental e, segundo os pesquisadores, a presença isolada da mioglobina pode não ser suficiente para replicar o sabor do animal, já que seria necessária a presença do chamado 'grupo heme' para proporcionar a experiência sensorial completa.
Ainda que o consumo direto não seja o objetivo imediato, o sucesso do experimento abre portas para a produção sustentável de proteínas de origem animal em escala vegetal, um avanço que pode revolucionar a indústria alimentícia e reduzir drasticamente a dependência da pecuária tradicional nas próximas décadas.
Fonte: Terra Gente