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David Bowie: segredo sobre câncer preservou sua despedida artística

David Bowie em apresentação durante sua carreira musical

A discrição sobre a doença não apagou o impacto de Blackstar, último álbum lançado pelo cantor antes de sua morte.

A morte de David Bowie, em 10 de janeiro de 2016, revelou uma escolha que foi muito além da privacidade: o cantor decidiu atravessar os últimos 18 meses de vida sem tornar público o câncer que enfrentava. Aos 69 anos, ele morreu apenas dois dias depois de lançar *Blackstar*, seu último álbum.

A avaliação do Foco nas Estrelas é que o silêncio de Bowie não deve ser tratado apenas como um mistério ligado à sua morte. Foi também uma forma de controlar os limites entre a pessoa doente e o artista em atividade. Ao esconder o diagnóstico, ele evitou que sua produção final fosse recebida apenas como um documento sobre sua condição médica.

A informação era conhecida por um grupo restrito de familiares e amigos. Segundo Robert Fox, amigo de Bowie havia mais de 40 anos, até pessoas próximas desconheciam a gravidade do quadro. O comunicado divulgado nos canais oficiais do cantor informou que ele morreu em paz, cercado pela família, após uma batalha de 18 meses contra o câncer.

*Blackstar* transformou a despedida em obra

Lançado em 8 de janeiro de 2016, no aniversário de 69 anos de Bowie, *Blackstar* chegou ao público 48 horas antes da morte do cantor. O álbum, seu 25º de estúdio, combinou rock, jazz e música eletrônica em sete faixas.

David Bowie em apresentação durante sua carreira musical

A proximidade entre o lançamento e a morte alterou a forma como o trabalho foi interpretado. A música “Lazarus”, acompanhada por um videoclipe com imagens em ambiente hospitalar, passou a ser associada ao momento vivido pelo artista. O produtor Tony Visconti afirmou depois que o disco foi concebido como uma espécie de presente de despedida aos fãs.

Essa leitura é compreensível, mas precisa de cautela. O fato de Bowie ter trabalhado em um álbum enquanto enfrentava uma doença terminal não autoriza concluir que cada detalhe da obra tenha sido criado para anunciar sua morte. O que os dados permitem afirmar é que ele manteve o controle sobre a própria narrativa até o fim: lançou um projeto experimental, preservou a informação médica e deixou que a obra falasse antes do comunicado oficial.

O reconhecimento veio depois da morte. *Blackstar* recebeu cinco prêmios Grammy, incluindo o de Melhor Álbum de Rock. O resultado reforçou a força artística do trabalho, mas também criou o risco de reduzir sua importância ao caráter póstumo. A leitura mais consistente é enxergá-lo como uma obra de carreira, que ganhou novas camadas por causa da circunstância em que foi lançada.

David Bowie em apresentação durante sua carreira musical

Herança de US$ 100 milhões teve divisão definida

Além do legado musical, Bowie deixou um patrimônio estimado em US$ 100 milhões. Os documentos de seu testamento indicaram que a maior parte da fortuna ficou com a esposa, a modelo Iman, e os dois filhos: Duncan Jones e Alexandria Zahra Jones.

Iman recebeu 50% da herança e os imóveis do casal, incluindo o apartamento em Manhattan. Os outros 50% foram divididos igualmente entre os filhos. Duncan, filho de Bowie com Angela Barnett, e Alexandria, filha do cantor com Iman, receberam 25% cada um.

O testamento também destinou US$ 2 milhões à assistente pessoal Corinne Schwab e US$ 1 milhão a Marion Skene, amiga da família e antiga babá de Duncan. As determinações mostram que a distribuição não se limitou ao núcleo familiar imediato. Pessoas que tiveram funções duradouras na vida do músico também foram contempladas.

David Bowie em apresentação durante sua carreira musical

Bowie ainda deixou instruções sobre a própria cremação. Seu desejo era que as cinzas fossem espalhadas em Bali, na Indonésia, seguindo rituais budistas. A família realizou a cerimônia de forma privada.

A trajetória ao lado de Iman ajuda a entender a coerência dessa discrição. Os dois se conheceram em 1990 e se casaram em 1992, mantendo a vida familiar longe da exposição excessiva durante quase 24 anos de união. Nesse sentido, a decisão de não divulgar a doença parece menos uma ruptura e mais a continuidade de uma fronteira que Bowie havia estabelecido entre sua imagem pública e sua intimidade.

O ponto central da história não é apenas que o cantor morreu com uma fortuna expressiva ou que escondeu um diagnóstico. É que, mesmo diante de uma doença terminal, ele conseguiu preservar o direito de decidir quando sua vida pessoal entraria na narrativa pública. *Blackstar* foi lançado como música; somente depois passou a ser lido também como despedida.

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