
Apresentador confortou Matheus, de 9 anos, após episódio com influenciadora e uma onda de solidariedade à família em Caucaia.
A ligação de Luciano Huck para Matheus dos Bombons, de 9 anos, teve um peso maior do que uma simples demonstração de carinho. O menino havia sido exposto enquanto tentava vender doces no Mercado dos Peixes, em Fortaleza, e apareceu abalado depois de ser tratado com deboche por uma influenciadora.
Matheus, que é autista, ofereceu seus produtos a uma mesa ocupada por Valéria Diniz e amigas. Durante a abordagem, a influenciadora perguntou sobre a posição política dele e da família. Depois que o garoto mencionou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ela pediu que ele fizesse com as mãos o gesto associado ao político.
A criança obedeceu. Em seguida, Valéria recusou a compra dos doces, enquanto as acompanhantes riam. O episódio foi gravado e publicado na internet. Segundo o relato da avó, Inês Maria do Nascimento, Matheus voltou para casa chorando.
O ponto mais grave da situação não está apenas na recusa da compra. Uma criança que trabalhava para ajudar em casa foi colocada diante de uma provocação política e transformada em conteúdo. A cena misturou exposição, constrangimento e uma diferença evidente de posição entre uma adulta com alcance nas redes e um menino de 9 anos tentando vender balas.
A solidariedade corrigiu parte do dano, mas não apaga a humilhação
A família vive em Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza, e Matheus é criado pela avó após a morte da mãe. Depois da divulgação do vídeo, motociclistas e entregadores foram até a residência para levar alimentos, brinquedos e comprar o estoque de doces do garoto.
Essa mobilização teve um efeito prático. Em vez de apenas condenar o episódio, moradores ajudaram diretamente a criança e a família. Ainda assim, é preciso separar solidariedade de reparação completa: alimentos, brinquedos e a venda dos produtos oferecem suporte imediato, mas não desfazem a exposição sofrida por Matheus.

Foi nesse ponto que a ligação de Huck ganhou relevância. O apresentador disse ao menino para não permitir que a falta de respeito de alguém apagasse seu sorriso e seus sonhos. Também o incentivou a continuar os estudos. A fala não resolve o problema, mas devolve à criança uma mensagem oposta àquela deixada pelo vídeo: seu valor não depende da aprovação de quem o constrangeu.
A participação de uma figura conhecida pode ampliar uma rede de apoio, mas também revela como a ajuda a pessoas vulneráveis costuma depender de a história alcançar alguém famoso. Matheus recebeu atenção porque o caso foi filmado e chegou a um apresentador de grande visibilidade. Isso é positivo no episódio concreto, mas não deveria ser a única porta para que uma criança em situação semelhante fosse tratada com respeito e assistência.
Pedido de desculpas não elimina a responsabilidade pela exposição
Após perder o perfil no Instagram, que reunia cerca de 70 mil seguidores, Valéria Diniz publicou uma retratação. Ela afirmou que não pretendia oprimir Matheus, disse que também é mãe de um filho autista e alegou que a conversa ocorreu em tom de brincadeira. Também relatou ter recebido ameaças e ataques direcionados a ela e aos filhos.
A justificativa não muda o resultado visível da abordagem. A intenção alegada pela influenciadora é uma versão apresentada por ela; o vídeo, segundo os fatos relatados, mostra uma criança sendo questionada sobre política, induzida a fazer um gesto e dispensada depois, diante de risos. O impacto sobre Matheus foi descrito pela avó, que o encontrou em prantos.
Isso não autoriza ameaças contra Valéria ou seus familiares. A crítica ao comportamento precisa permanecer dentro de limites legais e humanos. Responsabilizar uma adulta pela forma como ela expôs uma criança é diferente de promover perseguição contra sua família.
A atuação de Luciano Huck foi acertada porque concentrou a atenção na criança, e não em uma disputa interminável entre adultos nas redes. O gesto mais importante da ligação foi recolocar Matheus no centro como pessoa afetada pelo episódio, não como personagem de uma briga política ou de uma guerra digital.