
A mudança para a propriedade comprada com John Lennon representa mais que isolamento: revela a transformação de um endereço histórico em espaço familiar.
Aos 93 anos, Yoko Ono vive uma fase distante do circuito público que marcou sua trajetória. Desde a pandemia de Covid-19, a artista passou a permanecer por períodos mais longos em uma fazenda de aproximadamente 600 acres, o equivalente a 243 hectares, na região de Franklin, no interior do estado de Nova York.
A propriedade foi comprada por Yoko e John Lennon em 1978, dois anos antes da morte do músico. O casal buscava um refúgio fora de Manhattan e também pretendia desenvolver uma criação de gado leiteiro no local. O rebanho chegou a reunir 122 vacas da raça Holandesa e dez touros.
A leitura mais relevante sobre essa mudança é que Yoko não apenas deixou uma residência famosa. Ela trocou o Dakota, endereço ligado à sua vida com Lennon e ao assassinato do músico, por um lugar que já carregava uma história familiar própria.
Da memória do Dakota à rotina no campo
Durante cerca de cinco décadas, o edifício Dakota, no Upper West Side de Manhattan, foi o principal endereço de Yoko. Foi ali que ela e Lennon construíram parte da vida familiar e onde o ex-integrante dos Beatles foi assassinado em 8 de dezembro de 1980.
A fazenda, embora também esteja ligada ao casal, oferece outra relação com esse passado. No começo, o espaço refletia o interesse de Lennon pela atividade rural e funcionava como contraponto à rotina movimentada de Nova York. Com o passar dos anos, porém, tornou-se um local associado à permanência de Yoko e à convivência com os familiares.
Em 2023, foi noticiado que a artista havia deixado o apartamento em Manhattan e passado a morar na propriedade rural. A mudança ganhou um significado maior porque rompeu com a imagem de Yoko permanentemente ligada ao Dakota. O novo endereço não apaga essa história, mas desloca o centro da vida dela para um ambiente menos exposto.
Uma aposentadoria pública, não um desaparecimento
Sean Ono Lennon afirmou, em entrevista à CBS repercutida em dezembro de 2025, que a mãe se aposentou das atividades públicas e leva uma rotina mais tranquila no interior de Nova York. A declaração ajuda a diferenciar duas ideias que costumam ser confundidas: afastar-se dos eventos e deixar de existir publicamente não são a mesma coisa.
Yoko continua ligada ao legado artístico construído ao lado de Lennon e à preservação dos interesses da família. O que mudou foi a presença cotidiana diante do público. A propriedade passou a permitir uma vida mais reservada, próxima de Sean e de outros familiares, sem a exposição constante associada à artista.
Kyoko Ono Cox também descreveu essa fase na biografia *Yoko*, escrita por David Sheff. Segundo o relato, a mãe encontrou satisfação em atividades simples, como observar o céu e ouvir o vento. O detalhe é significativo porque apresenta a mudança não como uma fuga dramática, mas como uma adaptação de rotina na velhice.
Ainda assim, é preciso evitar conclusões além do que os fatos permitem. Não há informação de que Yoko tenha abandonado a arte ou rompido com sua história pública. O que está documentado é uma escolha por menos aparições e por uma vida concentrada em uma fazenda que já fazia parte de sua trajetória havia quase cinco décadas.
A importância desse refúgio está justamente nessa continuidade. A propriedade nasceu como um projeto rural do casal, atravessou a morte de Lennon e hoje funciona como espaço de recolhimento para Yoko. Mais do que representar isolamento, ela mostra como um patrimônio ligado à memória de uma celebridade pode ganhar outra função: servir de base para uma fase familiar, silenciosa e deliberadamente distante dos holofotes.