
Aos 80 anos, Marieta Severo mostra como televisão, teatro e escolhas profissionais formaram uma carreira que atravessa gerações.
Marieta Severo completa 80 anos com uma trajetória que não cabe apenas na lista de personagens famosos. A atriz construiu presença duradoura na televisão, manteve ligação constante com os palcos e também participou da criação de um espaço dedicado à produção teatral no Rio de Janeiro.
A leitura mais justa de sua carreira é que a popularidade nunca apagou a dimensão artística do trabalho. Marieta se tornou conhecida por personagens acessíveis ao grande público, mas sua importância está justamente na combinação entre alcance popular e continuidade no teatro.
Da televisão popular à variedade de personagens
Entre 2001 e 2014, Marieta interpretou Dona Nenê em *A Grande Família*. A matriarca se tornou um de seus papéis mais reconhecidos e ajudou a consolidar a atriz diante de diferentes gerações de espectadores.
O alcance da personagem, porém, não resume sua atuação na teledramaturgia. Marieta também viveu a vilã Alma Flora, em *Laços de Família*, a empresária Fanny Richard, em *Verdades Secretas*, e Noca, em *Um Lugar ao Sol*. Os papéis mostram uma carreira construída sobre registros distintos, sem dependência de um único tipo de personagem.
Essa variedade é um dos pontos mais fortes de sua trajetória. Dona Nenê ampliou sua identificação com o público por meio do humor e da rotina familiar. Já personagens como Alma Flora e Fanny Richard exploraram outros tons, ligados ao conflito, à ambição e às relações de poder.

O teatro como escolha permanente
A relação de Marieta com o teatro ganhou uma dimensão concreta em 2005, quando ela inaugurou o Teatro Poeira, em Botafogo, no Rio de Janeiro. O espaço foi idealizado em parceria com a atriz Andréa Beltrão.
A iniciativa ajuda a entender por que a carreira de Marieta não deve ser avaliada apenas pela quantidade de trabalhos na televisão. Ao participar da criação de um teatro, ela também se envolveu com a estrutura necessária para que a arte dos palcos tivesse um lugar próprio de produção e apresentação.
Esse aspecto torna sua trajetória mais consistente. A atriz não ficou restrita à exposição proporcionada pela televisão. Sua atuação também passou pela construção de um ambiente cultural, algo que exige permanência e compromisso com o teatro para além da presença em cena.
Uma história pessoal ligada à cultura brasileira

Marieta foi casada com Chico Buarque por 33 anos, entre 1966 e 1999. Durante a ditadura militar, os dois viveram um período de autoexílio na Itália, depois que ameaças e o risco de prisão levaram o casal a permanecer no país.
A primeira filha, Silvia Buarque, nasceu em Roma, em 28 de março de 1969. Marieta e Chico também são pais de Helena Buarque e Luiza Buarque. As três seguiram caminhos profissionais diferentes e mantêm uma vida pública mais discreta.
Essa dimensão familiar aparece nas homenagens pelos 80 anos, mas não deve se sobrepor ao centro da trajetória da atriz. A ligação com Chico Buarque faz parte de sua biografia e de um período marcante da história brasileira. Ainda assim, os trabalhos no palco e na televisão mostram que Marieta construiu uma identidade artística própria.
A principal marca de seus 80 anos, portanto, não é apenas a longevidade. É a capacidade de atravessar formatos e épocas sem ficar associada a um único momento da televisão. Entre Dona Nenê, personagens dramáticas e o investimento direto no teatro, Marieta Severo representa uma carreira que alcançou o grande público sem abandonar a densidade dos palcos.