
Apresentadora fala sobre a memória de Rafael Mascarenhas e defende uma forma de viver o luto baseada no amor e na gratidão.
A maneira como Cissa Guimarães fala sobre a morte do filho Rafael Mascarenhas se distancia das narrativas tradicionais sobre perda. Em participações no *Sem Censura*, da TV Brasil, a apresentadora tem apresentado a maternidade como um vínculo que não termina com a morte, mas passa a ser vivido por meio da memória.
Em abril de 2025, ao lembrar o filho caçula, morto aos 18 anos, Cissa resumiu essa visão em uma frase contundente: “Não perdi nada, eu só ganhei. Ganhei 18 anos do maior amor do mundo”. A declaração não elimina a dor da saudade, mas muda o modo como ela é enquadrada. Em vez de tratar a história apenas pela ausência, a apresentadora coloca no centro o tempo compartilhado e o amor construído.
Essa escolha de linguagem é o aspecto mais forte de seus depoimentos. Cissa não nega o luto nem sugere que a perda possa ser superada de maneira simples. O que aparece é uma tentativa consciente de preservar a presença de Rafael na própria trajetória, sem reduzir a relação entre mãe e filho ao episódio de sua morte.
O luto como continuidade do vínculo
Rafael Mascarenhas morreu em julho de 2010, depois de ser atropelado no Túnel Acústico, na Gávea, Zona Sul do Rio de Janeiro. Na madrugada do acidente, ele andava de skate em uma via interditada para manutenção quando um carro entrou irregularmente no local.

O caso marcou profundamente a família e provocou comoção. Mais tarde, o túnel recebeu o nome de Túnel Acústico Rafael Mascarenhas, uma homenagem pública que também manteve o nome do jovem associado ao espaço onde ocorreu o acidente.
Para Cissa, no entanto, a lembrança de Rafael não depende apenas de uma homenagem oficial. Ela aparece em falas, entrevistas e no modo como a apresentadora descreve a própria maternidade. O amor é tratado como algo que permanece ativo, não como uma lembrança distante.
Essa perspectiva tem peso porque evita dois extremos comuns ao falar de luto: a ideia de que a pessoa precisa “seguir em frente” como se a relação tivesse acabado, ou a transformação da dor em uma imagem permanente de sofrimento. Cissa propõe outra saída: reconhecer a saudade e, ao mesmo tempo, valorizar a vida que existiu.
A força e o limite da declaração
A frase sobre ter “ganhado” 18 anos com Rafael é poderosa porque expressa uma experiência pessoal com clareza. Ela não deve ser tomada como uma fórmula universal para o luto. Cada pessoa enfrenta a perda de maneira diferente, e a fala de Cissa não diminui a violência do acidente nem a falta provocada pela morte do filho.

Seu valor está justamente em não tentar oferecer uma solução geral. A apresentadora fala a partir da própria história. Ao fazer isso publicamente, transforma uma experiência íntima em reflexão sobre maternidade, maturidade e memória, sem afirmar que a saudade desapareceu.
A abordagem também mostra como figuras conhecidas podem falar sobre perdas familiares sem limitar o assunto à exposição da tragédia. No caso de Cissa, o foco está menos nos detalhes do acidente e mais na permanência do vínculo afetivo. Essa mudança impede que Rafael seja lembrado apenas pela forma como morreu.
Cissa Guimarães tem uma trajetória longa no teatro e na televisão. Começou no teatro em 1977, ganhou projeção como repórter do *Vídeo Show*, onde trabalhou por cerca de 15 anos, e participou de novelas como *O Clone* e *América*. Ainda assim, ao abordar Rafael, ela não fala a partir da imagem profissional, mas da condição de mãe diante de uma ausência que continua fazendo parte de sua vida.
É essa combinação de dor, gratidão e memória que dá consistência às reflexões da apresentadora. A saudade permanece, mas não ocupa sozinha o significado da história. Para Cissa, lembrar Rafael também é reconhecer os 18 anos de convivência e o amor que, segundo ela, continua sendo a parte mais viva dessa relação.