
Cantor e pianista estava internado em São Paulo e deixou sucessos que ajudaram a popularizar o chamado samba-joia.
A música brasileira perdeu Benito Di Paula neste domingo (18), aos 84 anos. O cantor e pianista morreu por volta das 20h, no Hospital 9 de Julho, em São Paulo, onde estava internado para tratar um câncer diagnosticado havia aproximadamente um ano.
A morte foi confirmada pela assessoria do artista. Até o momento, não foram divulgadas informações sobre o velório e o sepultamento.
O principal legado de Benito não está apenas na quantidade de sucessos, mas na maneira como ele ampliou as possibilidades do samba popular. Ao unir o piano a canções românticas e melodias acessíveis, o artista ajudou a consolidar o chamado samba-joia, vertente que marcou a música brasileira nas décadas de 1970 e 1980.
Uma trajetória construída entre o samba e o piano
Nascido Uday Vellozo, em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, Benito Di Paula começou a carreira ainda jovem. Na adolescência, foi convidado pelo incentivador Alfredo Motta para cantar no Hotel Avenida, em sua cidade natal.
A projeção nacional veio com “Retalhos de Cetim”, lançada em 1973. A música se tornou um dos grandes símbolos de sua carreira e vendeu mais de 150 mil cópias. O sucesso abriu espaço para outras canções populares, como “Charlie Brown”, “Se Não For Amor”, “Beleza que É Você”, “Mulher” e “Vai Ficar na Saudade”.
Essa trajetória ajuda a explicar por que a morte do artista representa mais do que a despedida de um intérprete conhecido. Benito ocupou um espaço próprio na MPB ao levar o piano para o centro de um repertório associado ao samba romântico. Sua obra combinava teatralidade, melodia forte e identificação imediata com o público, sem abandonar a estrutura tradicional do gênero.
O último trabalho com o filho
A música também aproximou Benito do filho Rodrigo Vellozo, que seguiu carreira como cantor e pianista. Os dois lançaram juntos, em 2020, o álbum “O Infalível Zen”.
O trabalho reforçou a continuidade artística dentro da família, mas sem apagar a identidade construída por Benito ao longo de décadas. Rodrigo era um parceiro musical, enquanto o pai já carregava uma assinatura reconhecida por sua voz, pelo piano e pelo visual característico.
Benito era casado desde 1976 com Joana Olmedo. O casal teve dois filhos. O caçula, André Vancellote Vellozo, morreu em 2019, aos 36 anos.
O visual que marcou a pandemia
Em 2020, durante o período de maior incerteza provocado pela Covid-19, Benito raspou a cabeça e retirou o bigode, marcas que faziam parte de sua imagem pública. A mudança foi apresentada como uma tentativa de se proteger do vírus, então ainda pouco conhecido.
O resultado deixou o cantor praticamente irreconhecível para quem estava acostumado à vasta cabeleira e ao bigode. O episódio ganhou força justamente porque mostrava, de forma concreta, como o medo da doença alterou hábitos e aparências até de artistas com uma imagem consolidada.
A cena também resume uma característica da relação de Benito com o público: seu visual não era um detalhe separado da carreira. A aparência, o piano e o repertório formavam um conjunto facilmente identificável. Por isso, a transformação temporária chamou atenção sem precisar de uma nova música ou de uma aparição televisiva para ser lembrada.
A morte encerra uma trajetória de mais de cinco décadas, mas o repertório de Benito Di Paula permanece ligado a uma fase importante da canção popular brasileira. Seu mérito foi transformar uma combinação pouco convencional — samba, romantismo e piano — em uma marca artística reconhecível e duradoura.