
A despedida popular no Theatro Municipal de São Paulo consagra a ponte histórica que o compositor criou entre a sofisticação instrumental e o cancioneiro das massas.
A despedida pública de Benito di Paula acontece nesta terça-feira, 20 de outubro, das 9h às 15h, no Theatro Municipal de São Paulo. A escolha do principal palco lírico da capital paulista para o adeus ao artista, que morreu aos 84 anos no domingo (18), carrega um simbolismo preciso sobre o seu lugar na cultura brasileira.
Após a homenagem aberta a fãs e admiradores no centro histórico, o sepultamento ocorrerá às 17h no Cemitério Morumby, em rito restrito aos familiares. O músico estava internado no Hospital Nove de Julho, onde deu entrada levado pelo filho e parceiro de projetos, Rodrigo Vellozo, após um mal-estar. Benito enfrentava o tratamento de um câncer de próstata diagnosticado há cerca de um ano.
O piano popular no centro do palco clássico
A abertura dos portões do Theatro Municipal para velar Benito di Paula não é mero protocolo cerimonial; reflete a superação de uma barreira estética que marcou o início de sua trajetória. Nascido Uday Vellozo em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, ele herdou o instrumental do pai, José Vellozo, transitando desde a juventude entre o piano de hotel e a cadência do samba.
Ao introduzir o piano de cauda como protagonista de sucessos como "Retalhos de Cetim" e "Charlie Brown", Benito desafiou rótulos puristas da crítica setentista, que muitas vezes desdenhava do chamado "samba-joia" ou do romantismo popular. Ocupar o Municipal de São Paulo como espaço de velório sacramenta o reconhecimento institucional de uma obra que levou a harmonia pianística ao topo das paradas e ao gosto das multidões sem abrir mão do rigor técnico.

Entre o tributo público e o recolhimento familiar
A divisão clara do cronograma de terça-feira atende a duas dimensões essenciais da biografia do artista. Ao reservar seis horas de acesso coletivo no Theatro Municipal, viabiliza-se o último contato com uma base popular que sustentou vendagens de centenas de milhares de cópias de discos ao longo de cinco décadas.
Em contrapartida, o enterro reservado no Cemitério Morumby resguarda a intimidade dos parentes mais próximos. A parceria com Rodrigo Vellozo, consolidada tanto no trabalho conjunto em estúdio no álbum "O Infalível Zen", de 2020, quanto no amparo direto nos momentos finais no hospital, evidencia um laço que transcende a persona artística.
A despedida na capital paulista encerra o ciclo biográfico de um criador que, vindo do interior fluminense, encontrou em São Paulo a caixa de ressonância definitiva para um estilo inconfundível de fazer samba com teclas e sensibilidade romântica.